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domingo, 20 de setembro de 2009

W.



W. não diaboliza nem elogia o ainda e pelo segundo mandato presidente americano, George W. Bush (vi o filme uma semana antes do feliz acto eleitoral que se me afigura histórico para a história do mundo no contexto em que nos encontramos). Não o critica nem realça traços especiais, antes deixa que Bush se ricularize pelo que é ou pelo que não é ou ainda pelo que pretende ser, numa magnífica interpretação de clone de Josh Brolin (já o tinha demonstrado em Esta Terra Não é Para Velhos).

O último filme do realizador da trilogia do Vietname (Nascido a 24 de Julho, Platoon - Os Bravos do Pelotão e Quando o Céu e a Terra Mudaram de Lugar) e de outros biopics sobre Presidentes (JFK e Nixon, Comandante não o é) não é de todo elogioso perante Bush Filho mas não na medida em que se coloca como crítico - nada disso, longe disso - mas sim na perspectiva de que precisamente pelo realizador não tomar posição assumindo-se como documentarista num biopic por si construído sobre um presidente decadente e já cessante, marca este mesmo como o fantoche controlado por um gabinete ditatorial que vai controlando a seu gosto os destinos do mundo cuja potência sobre a qual reina foi construindo enquanto a esboroa.

Essa é a maior contradição americana - construir enquanto de destrói é a melhor maneira de simplificar o que tem sido a regência americana em assuntos externos que neste filme encontramos bem demonstrada. Há que ver o filme para compreender melhor este monstro simpático, este dub-ya; assume-se interessante para debatermos um pouco mais muitas das questões que nos afectam e também nos desperta para nunca cairmos dormentes perante ameaças extremistas e intolerantes sempre presentes (mesmo num mundo ainda considerado maniqueísta e considerando-o como tal - ameaças até do nosso lado da barricada).

http://wthefilm.com/index2.html

visto no Cine Monumental, ao Saldanha LX em companhia do MAL

COMANDANTE


A figura charmosa do Ditador é tão atractiva para quem não é directamente reprimido que alimenta inúmeras peças de cinema de qualidade diversa, exterior à definição de ditador que cada um tem consigo. Ditador é alguém que dita, que controla, que se guia pela sede pelo poder e que se prolonga nele, sobrepondo-se a outros. E assim é Fidel ditador, independentemente das simpatias partidárias.

Dois dos filmes que vi recentemente versavam sobre a temática apaixonante dos ditadores em formatos distintos e com resultados também diversos: o académico Il Caimano de Nanni Moretti e o biopic desgarrado W. (também de Oliver Stone como este Comandante).

Nota-se na irregular obra de Stone uma atracção assumida e monográfica pelas figuras carismáticas (também dele JFK e Nixon) e se neste último iniciou a sua visão sobre os estadistas malvados diabolizando Nixon ou deixando em W. que Bush se ridicularize, neste Comandante, Fidel surge fragilizado pela doença e quedado pela idade, num híbrido objecto que não é uma reconstrução biográfica nem um doc – mas sim uma conversa informal entre um estadista no ocaso da sua governação de 49 anos e um americano herói do Vietname, entremeado com apontamentos de época, muitos deles parciais do ponto de vista americano. Fidel permite que Stone avance com questões a que um vulgar ditador não se permitiria, acusando impertinência, como dos relacionamentos amorosos e do recurso a terapias psiquiátricas ou ainda questões específicas como do presumível afastamento de Che da política cubana por incompatibilidade, da perseguição aos homossexuais e da suposta presença de conselheiros cubanos em Hanói – tudo graciosamente afastado por um líder que nunca deixou de ser honestamente simpático dentro da sua reconhecida brutalidade.

Stone não deixa de ser americano no seu contacto com Fidel e assim a conversa fixada como entrevista debruça-se sobre a bipolaridade da Guerra Fria, a questão dos mísseis de Cuba, o desastre da Baía dos Porcos e ainda o ridículo novelístico de Elián, que se sobrepõem sobre o que seria bem mais interessante conhecer como as repercussões do eterno embargo americano, as condições económicas actuais do povo cubano e sobre o modo em que a Revolução contribuiu para que Cuba florescesse (e se de facto floresceu) após o protectorado americano de Baptista. Comandante não acrescenta nada ao que já sabemos e o que procuramos saber revela-se melhor nos livros de Gutiérrez ou até no Antes que Anoiteça de Schnabel. As filmagens são de 2003, pelo que também é aflorada a questão do terrorismo e da nova ordem mundial, mas sem consistente continuação e até se comenta Perón - com o musical Eva em fundo - Hemingway e Allende, mas sem a merecida profundidade. Continuará Fidel a usar as suas Nike sem o nos terem revelado como se quereria.

ler crítica na TAKE n9 :: http://www.takecom.pt