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domingo, 20 de setembro de 2009

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

Outra das curtas de Condorcet que se rege pelas normas do Dogma. 4 de 6 das que vi - verei as restantes já já. Não consegui encontrar qualquer referência a esta obra online, nem no omnisciente IMDB me safei, por isso aproveito para postar a obra de Eduardo Condorcet disponível nesse site : Eduardo Condorcet no IMDB.

Em Verdade ou Consequência, um jogo que se joga na vida jogando com segredos de vida que se pretendem revelar mas não se partilham de facto, torna-se um jogo violento. Um choque entre o querer e o poder, entre o grito e o medo da expectativa da revelação, entre a revolta e o conformismo revelado.

Este é o filme do oprimido, em que o herói é esmagado por todos e apenas por si. É um herói fraco que odiamos por não se revelar mas que ao mesmo tempo acompanhamos a dor de querer ser o que todos querem que seja, uma ideia de, uma ideia. E é sob esta ideia de ser algo que não é, que permanece, levando-nos a um simultâneo amor-ódio que lhe vamos sentindo. E é um filme sobre a realidade, a realidade da discriminação, sobre a intolerância perante uma relação amorosa minoritária - uma relação homossexual e o odioso conformismo que se vai estabelecendo sem resolução. A compreensão poderia existir mas o novelo nunca é desenrolado - permanece após toda a tensão do jogo a situação que já existia.

As interpretações são capazes e bastante credíveis na sua constante frustração - a fotografia razoável e o trabalho de edição, sobretudo o trecho inicial, muito interessantes. Não é tramado qualificar seja o que for na expectativa que nos acreditem? Vejam e comentem.

Uma curiosidade ao anteriormente referido Máscaras do mesmo director - a personagem central, Ralf é protagonizada pelo mesmo actor que faz de primeiro médico assistente, Dr Wagner, da mãe comatosa no enternecedor Good Bye Lenin! de Wolfang Becker.

Visto algures em jeito esquecido e deleitoso.

DIAGNOSE

Diagnose é mais um filme de Condorcet que visionei e foi esta curta de entre todas as obras que lhe vi a que mais me surpreendeu! É extraordinária!

Diagnose - diagnóstico em alemão (este filme é da fase alemã do realizador coimbrão) dá o mote e triangula o que poderia ser um diagnóstico perfeito, mas que ilustra - em estilo bem lúgubre - uma sucessão de observações médicas erradas que conduzem um desafortunado doente de uma (quase) rotineira intervenção cirúrgica num polegar para uma decadente galeria de intervenções desnecessárias até à morte final!


De destacar a actuação do actor principal que, diz-se, foi encontrado num centro de emprego alemão, procurando hipótese de trabalhar como actor. Este filme, este material, é de grandeza absoluta, é material para o Fantas e para o Indie e com grandes hipóteses de sair premiado e é a demonstração de que temos grandes realizadores por aí trabalhando e esperando abertura ao seu trabalho!

Parabéns!

667, O VIZINHO DA BESTA

Esta pequena longa - em antecipada redundância - do meu conterrâneo Eduardo Condorcet, recorda-me Ingmar Bergman por inúmeras razões - pelo jeito teatral em que surge a disposição das personagens no espaço, pelos incómodos silêncios que se prolongam, pela crescente e ruidosa antipatia que se vai instalando entre os quatro elementos da família que nos é apresentada.

Seguindo a lógica da numerologia 666 seria o número da besta, mas este 667 que é o nosso vizinho do vizinho 666, é o tal que se vai tornando em besta - enlouquecendo-se e levando com ele toda a família e ainda tentando puxar-nos também para esse desespero de voyeur com que vigia incessantemente o tal vizinho que nunca vemos (imaginamo-lo pelos comentários do nosso 667). O pai é perturbador, vai-se despedaçando à nossa vista até à combustão final - a Vera é como se fosse um outro Donnie Darko, a incómoda tensão sexual entre pai e filha, que engravida, o filho que se vai instabilizando, a mãe que se dilui em mecanismos cada vez mais automáticos, perdendo-se.

667, O Vizinho da Besta é peça e a peça é peça realmente (os actores estão mais acostumados ao palco e esta produção era para um palco verdadeiramente). Vejam - ficarão surpreendidos por este cinema português mais do que independente - independente mais que perfeito. Gosta-se.